quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CAMPANHA: MARCHA INTERNACIONAL CONTRA A MONSANTO

MARCHA INTERNACIONAL CONTRA A MONSANTO
Autismo, Parkinson, Alzheimer, anencefalia, câncer. O que o glifosato tem a ver com isso? Na propaganda, é pouco tóxico. Mas estudos mostram que o agrotóxico mais usado no mundo altera a produção e a ação de aminoácidos, vitaminas e minerais que protegem o organismo desses e outros males
(Por Cida de Oliveira, da RBA  20/05/2017 e 22/05/2017)

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INTERNATIONAL MARCH AGAINST MONSANTO: A marcha internacional deste ano teve como tema os efeitos nocivos do glifosato, o agrotóxico mais vendido no mundo.

São Paulo – Milhares de ativistas em mais de 30 países, em todos os continentes, foram às ruas (20/ 05) na 6ª Marcha Internacional contra a Monsanto, gigante do setor agroquímico e de biotecnologia de origem norte-americana. O alvo das manifestações, dessa vez, é o Roundup, nome comercial do agrotóxico mais vendido no mundo. Seu princípio ativo, o glifosato, vem sendo usado cada vez mais desde meados da década de 1970, com a entrada no mercado das sementes transgênicas, a grande maioria delas produzidas pela própria Monsanto. Com a suposta promessa de maior produção, essas sementes foram geneticamente modificadas para resistir a doses cada vez maiores desse e de outros venenos. 

Os manifestantes querem chamar atenção para a presença indesejável, nociva e cada vez maior de resíduos não só nos grãos, legumes, verduras e frutas que recebem esse agrotóxico como também em amostras de água da chuva, no leite materno, em fórmulas para alimentação infantil e até em vacinas. 

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O tema é de grande importância para o Brasil, que tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Nos últimos dez anos, segundo o IBGE, a venda de pesticidas no mercado agrícola brasileiro saltou de R$ 6 bilhões para R$ 26 bilhões, o que permitiu ultrapassar a marca de 1 milhão de toneladas – um consumo médio de 5,2 kg de veneno para cada habitante. Para piorar o quadro, avançam projetos de lei que pretendem incentivar ainda mais esse mercado.

Estudos que a indústria e muitas agências governamentais tentam ignorar ou até mesmo desqualificar apontam que o advento do glifosato está associado ao crescente registro de doenças pouco comuns até o produto passar a ser largamente utilizado. São diversos tipos de câncer, alterações neurológicas, endocrinológicas, digestivas e intestinais direta ou indiretamente associadas a distúrbios degenerativos e do desenvolvimento, como no Mal de Parkinson e no autismo, e malformações congênitas, como a microcefalia e anencefalia, entre outras igualmente graves, incapacitantes e mortais.

Anencefalia

Recentemente, o chamado caso Yakima Valley, no estado norte-americano de Washington, chamou atenção para o aumento incomum de nascimento de bebês com anencefalia, condição neurológica caracterizada pelo cérebro em tamanho bem menor que o normal para a idade, que coloca em risco a vida e o desenvolvimento motor e cognitivo. Segundo o próprio departamento estadual de Saúde, os registros aumentaram 8 vezes entre os anos de 2010 e 2013, tornando-se quatro vezes maior que a média nacional. E isso pouco tempo depois que o estado implementou um programa de capina química à base de glifosato, que contaminou rios. 

O estabelecimento da relação com o câncer sofre reveses conforme pressões do fabricante sobre as agências que deveriam zelar pela saúde pública. Em março passado, um juiz distrital dos Estados Unidos determinou a divulgação de documentos que comprovam que, na década de 1980, a Monsanto influenciou a agência de proteção ambiental do país para esconder, entre outras coisas, estudos sobre o potencial carcinogênico do veneno.

Há ainda estudos famosos, como os chefiados por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen Normandie, na França, que constataram danos ao fígado e rins e distúrbios hormonais em ratos alimentados com o milho transgênico NK603, da Monsanto. E que além desses efeitos graves, foi detectado o desenvolvimento de inúmeros tipos de tumores. Essas sementes foram desenvolvidas justamente para resistir a banhos de glifosato.

Tamanha repercussão levou a Monsanto a agir, desqualificando a pesquisa e exigindo, via pressão nos bastidores, a exclusão da publicação na revista Food and Chemical Toxicology, que teve seu corpo editorial reformulado com a entrada de um nome forte por ela indicado. Acabou que os mesmos resultados foram depois publicados em detalhes na Environmental Sciences Europe, mostrando todos os danos causados.

Mecanismo de ação

"Entre os mecanismos de ação do glifosato sobre as estruturas do organismo humano mais conhecidos estão a interferência de suas moléculas sobre a produção e a ação de aminoácidos, vitaminas e minerais essenciais para o bom funcionamento do corpo, e cujo déficit está associado a alterações que levam ao surgimento dessas doenças", afirma o agrônomo e consultor José Luiz Moreira Garcia. Graduado pela Escola Nacional de Agronomia do Rio de Janeiro, hoje incorporada à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Com mestrado em Fisiologia Pós-Colheita pela Universidade Estadual do Michigan, nos Estados Unidos, e em Fisiologia e Bioquímica de Plantas pela USP, estuda há 20 anos nutrição e saúde humana. O interesse pelo glifosato surgiu em palestras com pesquisadores norte-americanos, como o professor emérito da Universidade de Purdue, em Indiana, e Stephanie Seneff, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

"Pedra nos sapatos" da Monsanto, ambos têm inúmeros estudos que apontam o envolvimento do Roundup em diversas doenças. Em parceria com o pesquisador norte-americano Anthony Samsel, Seneff desenvolveu pesquisas que classificam o glifosato como o mais importante agente causador da epidemia da doença celíaca, causada por inflamações intestinais que levam a deficiências nutricionais, alterações no sistema reprodutivo, inclusive infertilidade, e aumentam as chances de desenvolvimento de doenças na tireóide, insuficiência renal e também o câncer. Inflamações essas muito semelhantes àquelas encontradas por outros estudos que constataram alterações em bactérias intestinais de peixes expostos a esse herbicida. 

Em cinco trabalhos que revisou todas as pesquisas feitas até então, a dupla Samsel & Seneff encontrou elevadas correlações entre as quantidades usadas de glifosato e a incidência de Alzheimer e Parkinson. Há inclusive uma apresentação que ela disponibiliza na internet. Em inglês acessível, traz muita informação para os mais interessados.

Autismo

Segundo explica Garcia, o organismo humano e dos animais depende do chamado microbioma intestinal, ou flora intestinal, composto por trilhões de células de dezenas de milhares de espécies de bactérias e leveduras – todos eles afetados pela ação do glifosato.

"Essa flora intestinal, que evoluiu com o ser humano por bilhões de anos, é constituída por 9 trilhões de células, quando todas as células do nosso corpo somam 1 trilhão. É por isso que somos considerados apenas 10% humanos pela escritora inglesa Alanna Collen", diz. "Esses 90% do nosso corpo não humano são afetados por essa substância."

Esta constatação é a relação mais robusta entre o autismo e o glifosato. Conforme o agrônomo, estudos mostram que crianças autistas têm níveis reduzidos de manganês no sangue, um mineral do qual os lactobacillus e outros microorganismos que colonizam o microbioma intestinal são extremamente dependentes.

Além disso, o manganês atua no processo de conversão dos aminoácidos glutamato a glutamina, essenciais na redução do nível de amônia que no cérebro causam alterações, as chamadas encefalopatias. "Crianças autistas têm problemas de encefalopatia crônica de baixo grau", afirma Garcia. Outra evidência vem de uma pesquisa de 2012, que aponta baixo teor de manganês na primeira dentição associado ao autismo. 

Os prejuízos aos níveis de manganês, bem como de outros minerais vitais à saúde – o cobalto, ferro, zinco, cobre, selênio, cálcio, magnésio, enxofre e molibdênio – são reconhecidos pela Monsanto. "Em uma das três diferentes patentes para a molécula original, a companhia alega que o glifosato é um poderoso quelatizante capaz de bloquear esses minerais." 

Parkinson e depressão

Na segunda patente, segundo Garcia, a Monsanto afirma que o glifosato interfere em uma via bioquímica do metabolismo vegetal que participa da síntese de alguns aminoácidos importantes tanto para as plantas como para o organismo humano. É o caso do triptofano, que o cérebro utiliza para produzir serotonina, mais conhecido como o hormônio do bem estar, a fenilalanina, que entra na composição de muitas proteínas necessárias para o organismo, e a tirosina, que atua na produção de neurotransmissores envolvidos em funções neurológicas relacionadas a funções cognitivas, de memória e humor, entre outras. Daí estar associado a quadros cada vez mais comuns de Parkinson.

"E ao bloquear a síntese desses aminoácidos, o glifosato impede a produção de alguns neurotransmissores, como a serotonina.Vale dizer que a falta de serotonina produz depressão, uma verdadeira epidemia em nossos dias. E depressão é deficiência de serotonia. Não de antidepressivos", ressalta o agrônomo.

Já na terceira patente, a Companhia declara que o glifosato tem ação antibiótica."A essa altura, fica claro que se a pessoa ingerir, por tempo indeterminado, um antibiótico que mata a maioria das formas de vida microbiológicas e um quelatizante, haverá consequências nunca antes aventadas na história da Medicina".

O especialista acredita ainda que um dos principais efeitos deletérias do componente ativo do Roundup é confundir o organismo, já que sua molécula tem configuração e ação muito semelhante à glicina, um aminoácido que atua na nutrição de algumas células."Isso permite que ele substitua a glicina, sendo incorporado a inúmeras proteínas e enzimas, alterando assim a sua conformação estrutural e espacial. Então esse aminoácido fake afeta a vida no seu princípio mais básico ao deixar de cumprir funções básicas que somente a original pode desempenhar".


Uma outra teoria que ele defende é que o glifosato afetaria as enzimas do sistema hepático com papel de desintoxicar o organismo da ação de toxicinas externos. "Ao afetar esse importante mecanismo, a substância contribuiria, indiretamente, para a nossa intoxicação. Mas essa evidência necessita ser ainda melhor estudada".

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