sábado, 5 de novembro de 2011

REPORTAGEM: SAÚDE DOS CENTENÁRIOS - DESAFIO DA MEDICINA

Saúde dos centenários é o novo desafio da medicina
O Dia, 27-10-2011



 
O fôlego para apagar as 100 velinhas que celebravam seu aniversário falhou um pouco. No mês passado, pela primeira vez, Maria José Durães precisou ir ao médico por causa dos pulmões. Nada grave – ela esbanja saúde de ferro - mas mesmo os casos simples de pacientes centenários são desafios para a medicina.

“Um desafio que será cada vez mais recorrente na prática médica por causa do aumento da expectativa de vida do brasileiro”, projeta o diretor da Sociedade Paulista de Cardiologia, João Fernando Monteiro Ferreira. “A nossa experiência com esta faixa etária ainda é muito restrita e as pesquisas clínicas também excluem os muito idosos. Mas eles não só estão mais presentes como exigem cuidados diferenciados”, completa.

Uma das dificuldades em atender aos centenários é que ainda não há uma resposta certa sobre o que, de fato, os fez viver tanto. Nasceram em épocas de cuidados médicos arcaicos, sem vacinas ou saneamento básico. “Vivi feito bicho do mato, trabalhando na enxada de sol a sol, solta, com pé descalço e um pouquinho de água para lavar o corpo no final do dia. Comecei a trabalhar já na barriga da minha mãe”, confirma Maria José ao lembrar da sua infância no interior de Minas Gerais e adolescência em Presidente Prudente, no noroeste paulista.

“Tive 14 filhos (o primeiro aos 16 anos) e nunca fiz um só pré-natal. Um dos meus meninos nasceu quando estava sozinha, no chão, sem luz e toalha por perto. Não morri não sei como”, diz ao calcular que o vizinho mais próximo da sua casa morava distante 9,5 quilômetros e o doutor era um “bicho muito mais difícil de achar do que as cobras e até onças” que ficavam em seu quintal.

A receita

Se o início difícil contrasta com o centenário vivido, os hábitos alimentares e de exercícios físicos – muito mais saudáveis e frequentes do que em tempos contemporâneos – podem justificar a presença de Maria José e dos outros 23.759 brasileiros no grupo etário que tem 100 anos ou mais, conforme calculou o Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE) no fim de 2010.

E a aposta do geriatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, Omar Jalul, é que a combinação destes dois fatores fez as pessoas estarem no aumento de 77% de centenários registrado nos últimos dez anos.“Claro que a genética é fundamental para a longevidade, mas o que vejo nos meus pacientes com mais de 100 anos (são 6 atualmente) é que nunca abandonaram uma dieta saudável e sempre mexeram o corpo de forma sistemática em todos estes anos vividos."

“É isso (dieta e não ao sedentarismo) que vai fazer a diferença para as próximas gerações”, acrescenta a pediatra Ana Escobar, da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do projeto familiograma. “No programa, acompanhamos 2.700 crianças, desde o nascimento, para que vivam até os 100 anos, com qualidade. E todas as intervenções médicas que já fizemos nestes três anos de projeto foram associadas à alimentação e ao incentivo de atividades”, diz.

A receita de Jalul e Escobar é incorporada e fornecida de forma simples por Maria José. Ela criou os filhos, os 30 netos, 40 bisnetos e 6 tataranetos com muito angu, quiabo, diversas folhas verdes, pouco doce e nada de fritura (só umas escorregadas no torresmo).

“Nunca tive preguiça de nada e não gosto de frescura só porque tenho 100 anos. Moro sozinha e gosto de ir e vir”, diz, com cara de brava, e lembrando que semana passada andou uma hora no Mercadão de São Paulo para admirar os temperos naturais que tanto adora.

“E para hidratar, o bom é água. Não tomo refrigerante, um veneno para o corpo. Mantenho a mente ativa, com os livros. Música eu não gosto mais de ouvir, porque a geração de hoje só bajula Roberto Carlos, mas bom mesmo era o Nelson Gonçalves.”

Hortinha

A ausência dos versos de Nelson Gonçalves fez com que o rádio deixasse de ser companhia para Maria José. Mas a sua horta caseira, presente na trajetória desde o tempo de menina, ela não abandona “nem que viva mais 100 anos”.

Maria José acredita que a vida sem dinheiro e sem recursos a aproximou das ciências de baixa tecnologia. “Só estudei até o primeiro ano, mas a vida me ensinou. Os meus chás, xaropes e temperos protegeram a saúde de toda minha gente”, diz. Ao mesmo tempo, evitaram a automedicação com drogas farmacêuticas e o excesso de sódio para salgar a comida, já que em vez de tempero pronto ela só usa ervas.

No início do mês, enquanto preparava um de seus cházinhos, uma tosse forte a levou ao hospital. Os pulmões, mostraram os exames, não estão 100% e quando os pacientes centenários chegam às clínicas, os médicos não sabem muito bem como recebê-los e medicá-los.

“Sempre precisamos avaliar muito bem qual procedimento aplicar nestes pacientes mais velhos”, emenda Rubens Belfort, diretor de oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que mantém o ambulatório do centenário, com 30 pacientes frequentes. “Nem tudo que a medicina oferece é uma boa opção para eles, que podem não ter um organismo forte o suficiente para aguentar um procedimento mais invasivo ou cirúrgico. Por vezes, o cuidado paliativo é mais indicado.”

O deslize na saúde pode até aguçar a preocupação dos médicos, mas não intimidou Maria José. Ela obedece às recomendações clínicas – “apesar de detestar ir ao consultório”, mas dá de ombros quando perguntada se tem receio de morrer. “Tenho tanta coisa para fazer que nem lembro que a morte existe.”

NOTÍCIA: TUMOR ILUMINADO POR ISOTIOCIANATO E FOLATO

Tumores iluminados
Revista Fapesp, 26-10-2011

O uso de uma substância fluorescente ajudou cirurgiões a remover células tumorais em ovário, que de outro modo não seriam reconhecidas nem eliminadas. Vasilis Ntziachristos, da Universidade de Munique, Alemanha, e colaboradores da Holanda e dos Estados Unidos verificaram que os tumores possuem muito mais receptores celulares para o folato, também conhecido como vitamina B9, do que as células normais.

Em seguida, viram que o folato se ligava ao isotiocianato fluorescente. Os pesquisadores injetaram a etiqueta fluorescente em pacientes e, por meio de uma câmara e uma luz especiais, identificaram as células tumorais malignas brilhando após se juntarem ao isotiocianato. Nenhuma reação foi observada nos tumores benignos.

A técnica aumentou a precisão das cirurgias e permitiu a retirada de tumores com menos de um milímetro de diâmetro (Nature Medicine, 18 de setembro). O próximo passo é verificar se o método amplia a taxa de sobrevida das pessoas tratadas.

NOTÍCIA: PARAPLÉGICO VOLTOU A ANDAR

Tratamento experimental faz paraplégico voltar a andar na Bahia
Jornal do Brasil, 26-10-2011

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Fundação Osvaldo Cruz no no laboratório do Hospital São Rafael, em Salvador, pode estar prestes a revolucionar a reabilitação de paraplégicos. A experiência foi aplicada em humanos pela primeira vez há seis meses e já tem resultados expressivos.

O primeiro voluntário, Maurício Ribeiro, voltou a caminhar apenas seis meses após receber um transplante de medula óssea de sua bacia para implantá-las na coluna vertebral. Ele realiza trabalho de reabilitação e, por enquanto, precisa da ajuda de um andador:

"Eu dei o passo e me senti estranho, porque nove anos sem caminhar e perceber que eu estava conseguindo fazer isso sobre minhas próprias pernas. Então, foi uma sensação muito boa", garantiu o major da Polícia Militar.

Outros cinco pacientes já foram submetidos à mesma terapia e encontram-se em estágios diferentes de reabilitação. De acordo com Marcus Vinícius Mendonça, neurocirurgião que participa das pesquisas, não há garantias de que essas pessoas voltarão a caminhar normalmente. Contudo, todas apresentaram algum tipo de evolução.

"É muito gratificante, e não somente isso, saber que isso é apenas uma ponta de iceberg, que com os resultados positivos nós podemos expandir essa técnica para um número maior de pacientes no futuro, além de continuar pesquisando formas de aprimorá-la".

Ainda segundo o pesquisador, a perspectiva é de que o tratamento possa ser aplicado em larga escala em cerca de 5 ou 10 anos.

NOTÍCIA: CÉLULAS -TRONCO DE LEITE MATERNO

Cientistas obtêm células-tronco de leite materno
O Globo, 26-10-2011
Cláudio Motta

RIO - As propriedades do leite materno alimentam a esperança de pesquisadores da UFRJ de conseguir produzir células-tronco em larga escala, que poderão ser usadas no tratamento de diversas doenças. O desafio era vencer a barreira natural imposta pelo baixo número destas células no leite, explica a responsável pela pesquisa Janaína Machado, mestre em Ciências Morfológicas pela UFRJ. Há cerca de três meses, técnicas desenvolvidas no laboratório da Cryopraxis, no Polo de Biotecnologia do Rio, na Ilha do Fundão, permitiram que este número fosse multiplicado por cem em apenas duas semanas.

- Embora existam em pequena quantidade (cerca de 14 mil células-tronco por mililitro de leite), elas têm grande capacidade de proliferar - diz Janaína. - O próximo passo é poder produzir células em larga escala. Os testes em animais devem começar até o ano que vem e permitirão avaliar a segurança.

Os tratamentos com células-troncos obtidas no leite materno devem ser realizados até o final da década. Consultora científica da pesquisa, Maria Helena Nicola explica que um dos principais benefícios da técnica é dispensar cirurgias.

- A novidade foi conseguir em laboratório que essas células proliferem sem perder suas características. Assim, poderão dar origem a inúmeros tecidos - ressalta Maria Helena.

A existência de células-tronco no leite materno foi descrita por cientistas australianos em 2007. Há três anos, começaram as pesquisas no Brasil. A descoberta, porém, não substitui as células obtidas a partir do cordão umbilical. Lá, a diversidade e quantidade é muito maior - cerca 800 milhões de células-tronco são obtidas em 70 mililitros de sangue coletados.

- Para recuperar a medula óssea, é necessário dispor de células-tronco hematopoiéticas (precursoras dos glóbulos sanguíneos). Há, ainda, as células-tronco mesenquimais, que formam todos os outros tecidos, neurais, ósseos e cartilagens - explica a consultora.

- A medula óssea e o cordão umbilical têm os dois tipos em quantidade. Todas as outras fontes de células-tronco, inclusive o leite, contam predominantemente com células-tronco mesenquimais.

O leite para as pesquisas foi obtido de 30 voluntárias, mães de bebês de três dias a um ano e meio de idade. As doadoras fazem a coleta com bombinhas e colocam o leite em solução preservadora, com conservante, nutrientes e antibióticos. É feita, então, a centrifugação para separar as células-tronco dos demais elementos do leite, como gordura e parte líquida. Mais pesadas, as células-tronco vão para baixo e são coletadas. Os pesquisadores, então, colocam-nas em um meio de cultivo.

- Queremos registrar a patente neste passo de expansão das células-tronco e de aprimoramento da separação delas do leite - diz Janaína.
Nas garrafas de cultivo, as condições são semelhantes às que existiam dentro do corpo feminino. Temperatura, umidade, pressão e teor de oxigênio e de gás carbônico são ideais para que as células-tronco se reproduzam.

- Mantemos as condições para que elas se sintam em casa e consigam crescer. A divisão celular é exponencial - ressalta Maria Helena.

A previsão é que, depois dos testes feitos com animais, a última etapa envolva a participação de pessoas. A pesquisa não conta com financiamento público, sendo mantida pela Cryopraxis, uma empresa especializada no armazenamento de longa duração de células-tronco do sangue do cordão umbilical.

Outra pesquisa também obteve avanços com células-tronco. Os cientistas Deivid Carvalho Rodrigues, Turan Urmenyi e Regina Goldenberg, todos da UFRJ, além de Antônio Carlos Campos de Carvalho, do Instituto Nacional de Cardiologia, conseguiram produzir células-tronco a partir do sangue menstrual. O trabalho será publicado na revista "Cell Transplantation".

- Induzimos uma célula-tronco do sangue menstrual a se comportar como uma célula embrionária, capaz de gerar qualquer célula do organismo - explica Antônio Carlos.

NOTÍCIA: SAÚDE APOSTA EM INOVAÇÃO E REDUÇÃO DE CUSTOS

Saúde aposta em inovação para reduzir custosMinistro Alexandre Padilha diz que governo vai garantir demanda de novas empresas que se instalarem no país
Brasil Econômico, 25-10-2011
Regiane de Oliveira

Crise no governo por conta de acusações de corrupção em vários ministérios, descoberta de que empresas importavam lixo hospitalar para o país, iminência de mais uma greve dos médicos do Sistema Único de Saúde (SUS), indefinição sobre a origem de recursos para fazer valer a Emenda 29 " que amplia o orçamento da saúde. Nada disso parece incomodar o ministro da saúde Alexandre Padilha, que caminhou confiante entre empresários durante evento do Grupo de Líderes Empresariais, realizado ontem em São Paulo.

Mesmo sem nenhuma idéia de onde virá os tais recursos a mais para a pasta " discussão que hoje ocupa grande parte do tempo do Congresso e da atenção social ", Padilha está se acostumando a vir à público divulgar algumas soluções simples mas que têm dado um ar de profissionalização ao ministério, como aumento de parcerias público-privadas, incentivos à produção, cortes de custos e caça a funcionários fantasmas.

"Meu papel não é ficar esperando vir ou não mais dinheiro", garante, sob o mote de que saúde não é só uma questão de política social e sim de desenvolvimento econômico. "O setor emprega 10% dos profissionais com nível superior, concentramos 30% do esforço de inovação, temos 12 milhões de trabalhadores. E dos países com mais de 100 milhões de habitantes, somos o único com saúde universal", ressalta. Padilha quer mais empresas da indústria de saúde produzindo no país e garante que o governo vai participar desse esforço de inovação.

"Quem quiser inovar e produzir no Brasil terá garantia de compra do Ministério da Saúde", afirmou. Além dos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o governo pretende investir R$ 4 bilhões até 2015 em inovação na saúde. É fato que os projetos ainda precisam ser mais elaborados.

"Precisamos produzir cadeiras de rodas que andem dentro de favelas. O que é uma especificidade só do Brasil", clamou o ministro às indústrias. Outra ação que promete incentivar a indústria nacional é a criação de uma margem de preferência para licitações públicas, com foco em favorecer a indústria nacional. "Sabemos que é importante a isonomia para quem produz aqui", diz, ressaltando que não faz sentido alguns produtos saírem até 45% mais baratos quando comprados lá fora, por conta da tributação do país.

"Precisamos entrar na era dos produtos biotecnológicos, que, apesar de representarem 1% de nosso volume de compras, respondem por 34% do nosso orçamento."

Corte de custos

Uma das vitórias do ministro é a economia de R$ 600 milhões só nos seis primeiros meses do ano, com a mudança do sistema de compras do governo, que passou a ser centralizada e baseada em comparação internacional de preços. A economia já teve destino, o Programa Farmácia Popular, feito por meio de PPP entre a indústria de medicamentos e o varejo de medicamentos, que passou a dar gratuitamente remédios para hipertensão.

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